4. Canção para o Tempo (Transcrição)

Parte 1

Som ambiente de navio

 

 

  • Sempre notei que o senhor tem um medo danado de crocodilos – disse o Irlandês.

 

    • Não de crocodilos! – corrigiu com raiva o Capitão Gancho. – Só tenho medo daquele crocodilo. – Abaixou então a voz. – Ele gostou tanto de minha mão, Irlandês, que tem me seguido a vida inteira, por todos os mares, por todas as terras, e vai lambendo os beiços com muita vontade de comer o resto de mim.

 

  • Não deixa de ser uma espécie de homenagem – disse o pirata.

 

  • Não quero homenagens desse tipo – uivou o Capitão. – O que eu quero é Peter Pan, que deu uma prova de mim para o animal. – Sentou-se num cogumelo enorme e fez mais uma revelação: – Irlandês, o crocodilo já teria me comido, se eu não tivesse dado sorte: acontece que ele engoliu também um relógio, que faz tique-taque o tempo todo. Quando escuto o tique-taque, eu me mando.

E o Capitão Gancho deu uma gargalhada oca.

 

  • O diabo é o seguinte: o dia que o relógio parar, por falta de corda, o crocodilo vem e… era uma vez o Capitão Gancho.

 

Passou a língua nos lábios secos:

  • Pois é isso, Irlandês, pois é isso o que me apavora.

 

Vírgula: O Tempo perguntou ao Tempo quanto tempo o tempo tem. O Tempo respondeu ao Tempo que o Tempo tem tanto tempo quanto tempo o Tempo tem.

 

Parte 2

Comentário: Marcelo

Bem vindos e obrigado a todos pela audiência, eu sou Marcelo Cafiero e este é o Podcast Hiperativo, um espaço para reflexão sobre temas diversos a partir de textos literários e informativos. Hoje, por sugestão do Foca, do podcast Despachados, o nosso tema é o tempo

 

Parte 3

A pressa do Tempo – Marcelo Gleiser

O tempo é uma medida de mudança. Se nada ocorre, o tempo se faz desnecessário. Portanto, no plano pessoal, percebemos a passagem do tempo nas mudanças que ocorrem à nossa volta e na nossa pessoa. O que torna a discussão interessante é que a “percepção” da passagem do tempo não precisa ser através dos cinco sentidos, como é o caso de outras percepções. Por exemplo, podemos determinar se algo está quente ou frio, perto ou longe, claro ou escuro, barulhento ou quieto, doce ou salgado, usando os nossos sentidos. Mas se nos isolássemos completamente, de modo a bloquear qualquer tipo de sensação sensorial de fora para dentro, ainda poderíamos perceber a passagem do tempo através dos nossos pensamentos. Na nossa cabeça, o tempo nunca para.

Dizem que a geometria veio das medidas de distância e os números vieram da passagem do tempo. Sendo assim, a percepção do tempo é ligada à à passagem: existe uma ordenação de eventos, coisas que acontecem uma após as outras. Os números nos ajudam a contá-las e à pô-las em ordem. Mas, para que seja possível ordenar eventos -o que vem antes de quê- precisamos lembrar o que ocorreu.

Logo, a percepção do tempo depende fundamentalmente da memória. Se nossas memórias desaparecessem por completo, nossa percepção da passagem do tempo se transformaria: voltaríamos a ser como bebês, e cada dia seria imensamente longo, cheio de memórias sendo acumuladas, baseadas nas tantas novidades que a vida oferece. Quanto mais temos para descobrir, mais memórias para criar, mais devagar o tempo passa. Na verdade, o tempo passa sempre do mesmo jeito, segundo após segundo. Mas nossa percepção dessa passagem depende do nível de envolvimento que nosso cérebro tem com a experiência que estamos tendo. A relatividade psicológica da passagem do tempo depende de quão nova a experiência é. Rotinas, a falta de novidade, faz com que o tempo acelere.

 

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe0301201004.htm

 

Parte 4

Comentário: Marcelo Cafiero

 

Gosto desse texto do Marcelo Gleiser por dois motivos. O primeiro é que ele nos ajuda a perceber o porquê de nossos dias irem acelerando enquanto envelhecemos. Temos cada vez menos coisas a descobrir no mundo e uma rotina que se consolida com maior solidez. E nessa reflexão podemos resgatar o Capitão Gancho, de Peter Pan… sempre correndo do “tic-tac” do relógio, enquanto seu arqui-inimigo flutua pelo ar vivendo aventuras e fantasias. Eu até fico com pena do Capitão quando percebo isso. Somos mais Capitão Gancho que Peter Pan, “o dia que o relógio parar por falta de corda, vem o Crocodilo”.

 

O segundo motivo é que ele liga um assunto que já tratei aqui, memória, ao assunto do próximo programa, rotina. Pois, é, você aí pensando que eu falei de “hipertexto” no primeiro programa sem motivo, né?

 

Vírgula: O tempo é um menino birrento/ Quando queremos lento, é rápido / Se o queremos rápido é lento.

 

Parte 5

Música ambiente

Trabalhava há anos na seção de Achados e Perdidos, com muito zelo, paciência e atenção aos pequenos detalhes. Mantinha todos os objetos organizados de maneira a facilitar sua localização quando fossem procurados.

 

Primeiro, as estantes eram identificadas por data: um mês, dois meses, quatro, sete, dez anos… em seguida, em cada prateleira, separava os objetos por tipo: carteiras, sapatos, exames médicos, sombrinhas, guarda-chuvas e tempo. Estes últimos eram sempre os de maior número.

 

Apesar de toda a dedicação, em muitos momentos, seu trabalho era frustrante, uma vez que a maior parte dos objetos perdidos não eram procurados por seus donos. Enquanto os donos que efetivamente procuravam a seção, não encontravam o seu objeto perdido entre aqueles achados e entregues ao Achados e Perdidos.

 

Um tipo de item em especial, nunca reencontrava seu dono: o tempo. Sombrinhas e guarda-chuvas costumavam ser procurados nos dias nublados. Carteiras, muitas vezes, até continham o mesmo valor em dinheiro de quando haviam sido perdidas. Mas o tempo, embora fosse o item mais procurado, nunca saía das prateleiras. Não é que ele se recusasse a entregá-los, pelo contrário! Satisfazia-se ao presenciar a alegria do reencontro. Mas era um funcionário zeloso, honesto e cumpridor de suas tarefas! Sempre que donos desleixados vinham ao guichê procurando por tempo, perguntava como ele era e quando havia perdido:

  • Era azul, eu o perdi há uns dois anos.
  • Era colorido, bem alegre. Perdi ontem.
  • Tinha assim uns detalhes em dourado, perdi agora no metrô.

Apesar de muitas vezes encontrar o tempo com a descrição feita, a sua resposta, invariavelmente era a mesma:

  • Sinto muito, este não é o seu tempo. Ele pertence a uma pessoa mais jovem.

 

Parte 6

Comentário

Esse foi o quarto episódio do Podcast Hiperativo, Projetos, criança doente, expansão das atividades do Entre Fraldas… atrasou tudo.

 

Nesse episódio agradeço a participação do Senhor A, como atendente do Achados e Perdidos.

 

O primeiro texto deste episódio é um trecho do romance “Peter Pan”. O segundo texto foi retirado de uma coluna que o físico Marcelo Gleiser escrevia na Folha de São Paulo. O conto sobre achados e perdidos é de minha autoria. Por fim, encerra o episódio um trecho da música Time, do Pink Floyd.

 

Ah! Não posso esquecer, do trava línguas que vem da cultura popular e do hai-cai que escrevi no meu tempo de adolescente.

 

Caso queiram enviar comentários e sugestões, como fez o Foca, sugerindo esse tema, enviem email para podcasthiperativo@gmail.com. Vocês também podem me encontrar no Twitter @marcelocafiero e todas as semanas no http://www.entrefraldas.com.br

 

Parte final

Música ambiente: Time (instrumental)

 

Cansado de tomar banho de sol

De ficar em casa para ver a chuva

Você é jovem e a vida é longa

Tem tempo para desperdiçar

Então, um dia você percebe

Que dez anos ficaram para trás

Ninguém lhe disse quando correr

E você perdeu o tiro de largada.

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4. Canção para o Tempo

O que é o tempo? Se temos como perder tempo, tem como ganhar? Esses e outros assuntos nesse episódio que levou muito tempo para sair!

Se você gostou do episódio, peço que perca um pouquinho do seu tempo fazendo sua avaliação no iTunes.

Se quiser entrar em contato comigo:
podcasthiperativo@gmail.com